Negacionismo

"Sempre com prazer a seu serviço". Era com esses dizeres que Ludwig Topf e seu irmão Ernst Wolfgang, presidentes da J.A. Topf & Söhne, de Erfurt, entregavam seu melhor produto ao seu melhor cliente. O produto, sua “pièce de résistance”: fornos crematórios; o cliente: o Escritório Central de Administração e Economia da SS (SS-Wirtschafts- und Verwaltungshauptamt, SS-WVHA), do império a parte erguido por Heinrich Himmler, na Alemanha nazista. Foi graças aos Topf que o nazismo pôde industrializar seu morticínio, incinerando, a partir de junho de 1944, 9 mil cadáveres por dia só em Auschwitz. "A empresa nunca foi forçada a construir crematórios e, pelo contrário, competia acirradamente com concorrentes como Heinrich Kori, de Berlim", afirma Annegret Schüle, curadora do memorial erguido no terreno da antiga fábrica da Topf.

Tendo isso em mente, a menos que as vítimas tenham sido queimadas vivas, é ululante que foram mortas por seus assassinos. As câmaras de gás foram erguidas para isso e os fornos complementavam a linha de produção da morte. Apesar disso, ainda há quem negue a Shoah. Como David Irving (1938), historiador britânico que processou Deborah Lipstadt (1947), professora de História da Universidade Emory, de Atlanta, e a Penguin Books, editora que publicou seu livro "Denying the Holocaust: The Growing Assault on Truth and Memory"(1996). No excelente filme “Negação”, que retrata o caso, em determinado momento, Irving, (Timothy Spall), esbraveja, referindo-se à planta baixa de Auschwitz: “Não há buracos naquele teto, portanto nunca houve câmaras de gás”. Assim, “sem buracos, sem Holocausto”.

É quase incompreensível que o caso tenha levado seis anos para chegar ao óbvio: Irving é um negacionista do maior crime já cometido na história da humanidade. As montanhas de arquivos, filmes, fotografias, testemunhas, sobreviventes, enfim, todas as evidências amontoam-se em diversos centros de documentação, em mentes torturadas e braços tatuados, e Irving ainda insiste em sua tese que contraria todos os fatos. O negacionista opta por furtar-se à realidade, escorando sua escolha em âncoras frágeis, que suportem sua cosmovisão, independente do que a história, a ciência ou qualquer outra disciplina lhe diga. O negacionista é um crente e, como tal, não admite ser refutado e vocifera contra quem o faz.

Vacina

Todo negacionista do Holocausto simplesmente desconsidera tudo o que já foi relatado, observado, apurado, registrado. Os livros e documentos podem ser acessados, mas ele “prefere” negar porque a robustez de sua crença é tão pífia que desmorona diante de qualquer evidência. Mas e quando o negacionista é assim rotulado porque não acredita em algo que não foi desenvolvido, testado e assegurado como deveria ser? Como alguém pode ser chamado de negacionista se os que o acusam não possuem evidências que o refute, já que, por acaciano que seja, tais evidências ainda não foram encontradas porque o objeto da controvérsia nasceu ontem? Não estamos falando de dados que possam ser cotejados, algo basilar na ciência. Só isso!

Por questões ideológicas, crenças pessoais, de estilo de vida, religião há quem não acredite em vacinas. Qualquer vacina, inclusive as que os estudos e as campanhas de imunização já provaram ser eficientes. Esse tipo de negação se assemelha a que minimiza, relativiza ou não acredita na Shoah, na evolução darwinista, nas doenças psiquiátricas. Para essa pessoa, tudo não passa de conspiracionismo já que nenhum dado é verdadeiro, nenhum fato é crível, nenhuma realidade se impõe. Ela, de fato, prefere acreditar no que quer acreditar porque isso mantém a ordem do seu mundo, faz sentido para sua existência, não ameaça seu conjunto de valores, seus conteúdos emocionais. Para ela, ser negacionista é quase um elogio.

David Sackett (1934-2015), epidemiologista da Universidade McMaster, Ontário, Canadá, cunhou o termo “MBE - Medicina Baseada em Evidências”, que preconiza “que as decisões clínicas devem ser embasadas no melhor grau de evidência obtido a partir de trabalhos científicos relacionados a questão clínica de interesse.” Qual o impacto das vacinas de vetor viral, DNA ou RNAm, contra o Covid-19, nos nascituros, na população idosa e sua gama de enfermidades advindas da própria senilidade, nas nefropatias, nas doenças cardiovasculares, neurodegenerativas? Ninguém sabe. E ninguém sabe porque a vacina, desenvolvida a toque de caixa, não possui estudos que possam dizer quais são os riscos. Isso é ser negacionista?