Fernando Martins de Souza, Psicólogo(a), FREI GASPAR

Ansiedade nos profissionais de saúde: enfermeiros

Todos sofrem, mas quem sofre são os soldados de guerra, que são os funcionários do setor de saúde. Então, é importante cuidar deles direito. Sem eles, estamos perdidos.

Pedro Fukuti, médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, SP

A OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou, em 30 de janeiro de 2020, que o surto do novo coronavírus constitui uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) – o mais alto nível de alerta da Organização, conforme previsto no Regulamento Sanitário Internacional. Em 11 de março de 2020, a COVID-19 foi caracterizada pela OMS como uma pandemia. O termo “pandemia” se refere à distribuição geográfica de uma doença e não à sua gravidade. A designação reconhece que, no momento, existem surtos de COVID-19 em vários países e regiões do mundo (OMS, 2020).

Com a pandemia COVID-19 os profissionais de saúde são convocados a trabalhar na linha de frente: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, bem como assistentes sociais, farmacêuticos, motoristas de ambulância, voluntários, identificadores de casos etc. Torna-se, portanto, necessário avaliar as condições mentais desses profissionais para que possam lidar com os pacientes.

Nossa pesquisa centraliza-se no caso específico dos enfermeiros. Como os enfermeiros passam mais tempo com os pacientes, bem como geralmente são os profissionais que realizam a coleta de secreções das vias aéreas ou de sangue para os exames que detectam SARS-CoV-2 ou anticorpos, podem estar mais expostos a infecções que os médicos, contribuindo para a maior ansiedade nestes profissionais. Soma-se a esses fatores o maior tempo em cada encontro com os pacientes, a maior proximidade física com os pacientes, o não recebimento de equipamentos de proteção individual em quantidade e qualidade adequadas para o período de trabalho, o medo de ser infectado pelo SARS-COV-2 e de transmitir o vírus para os familiares, desempenho de suas atividades, infraestrutura inadequada, falta de comunicação, falta de treinamento, possibilidade de morte, incerteza quando passará, exclusão social. Percebemos como as incertezas frente a esse quadro tem aumentado a ansiedade na categoria e segundo especialistas é difícil enxergar uma melhora no curto prazo.

"A incerteza de estar seguro, a preocupação de contaminar um ente querido, os estigmas da população geral que os colocam como vetores da doença, cargas horárias de trabalho aumentadas, realocação em outros setores do hospital que não o seu e falta de tratamento comprovadamente eficaz acabam gerando níveis de estresse muito altos, o que desencadeia todos os sintomas" (Yasmin Furtado, psiquiatra).

Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2015, 264 milhões de pessoas em todo o mundo apresentava algum transtorno de ansiedade, senso mais comum entre as mulheres. No Brasil, cerca de 9,3% da população é afetada por este transtorno (WHO, 2017).

Ansiedade é um sentimento vago e desagradável de medo, apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho (CASTILHO, 2000, P. 22).

Segundo CASTILHO (2000, P. 22), a ansiedade e o medo passam a ser reconhecidos como patológicos quando são exagerados, desproporcionais em relação ao estímulo, ou qualitativamente diversos do que se observa como norma naquela faixa etária e interferem com a qualidade de vida, o conforto emocional ou o desempenho diário do indivíduo.

O objetivo do nosso trabalho é investigar o impacto significativo nas condições de ansiedade no dia a dia dos enfermeiros de qualquer faixa etária e gênero que estão na linha de frente, devido à alta demanda da pandemia COVID-19.

Para tal objetivo, fizemos uma análise crítica de referências de artigos (e/ou livros, sites etc.) de língua portuguesa que abordam o transtorno a partir de 2020, que se adequam à pergunta norteadora da pesquisa para verificar como o COVID-19 é um fator de risco para o aumento de ansiedade nos enfermeiros.

É imprescindível o desenvolvimento de canis de comunicação, proteção quando necessário, apoio, treinamento e suporte eficientes por parte da liderança, de amigos e familiares para ajudar os enfermeiros. Encorajar os colegas quando precisarem, já que o ambiente de trabalho é extremamente exigente. O apoio de médicos, psiquiatras e psicólogos são essenciais na orientação quanto ao uso de medicamentos, precauções para evitar recaídas, atendimento remoto e plataformas online, ou seja, criando ações de promoção, prevenção, detecção precoce e tratamento de transtornos ansiosos (moderados ou graves), por uma melhor qualidade de via e garantia de força de trabalho.

Proteger a saúde física e mental dos trabalhadores de linha de frente é fundamental para que possam servir aos outros da melhor maneira possível.